sábado, 6 de fevereiro de 2010

Assembléia da Cooperativa da Música de Minas


Seguinte é esse, a COMUM vai realizar sua assembléia anual ordinária e todos que frequentam este blogue são bem-vindos!

Nessa assembléia vamos apresentar o Plano de Previdência Complementar CulturaPrev. Esse plano foi desenvolvido numa parceria do Instituto Petros (ligado À Petrobrás) com o MinC para atender uma demanda específica dos trabalhadores do setor cultural. Somos a primeira entidade do setor a instituir o plano aqui em Minas, que é uma forma de garantir a aposentadoria dos profissionais da área da música.

Vamos apresentar também, no nosso Planejamento para 2010, o projeto da Câmbio - Feira Internacional da Música que deverá ser realizada aqui em BH ainda este ano.

Além disso, faremos um balanço das atividades desenvolvidas ano passado, entre elas nossa participação na criação da Federação das Cooperativas de Música do Brasil, na Rede Música Brasil, a participação na WOMEX, em Copenhagen, na Rodada de Negócios de Bogotá e na Feira Música Brasil em Recife.

Serviço:
O quê: Assembléia da COMUM
Quando: 08 de fevereiro de 2010, segunda-feira, às 18h30
Onde: Espaço 104, localizado na Praça da Estação (entrada pela rua Guaicurus)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Fio Desencapado



incorporado num caboclo belzebu
o dito-cujo captou o meu recado
fio pelado e buraco de tatu
só bota a mão quem tem o cubo avariado

quem tá sentado numa sorte de urubu
tem de benzer pra ver se quebra o mal-olhado
fumar cachimbo de haxixe pra exu
e ver se vishnu nos deixa imunizados

riu de rivotril
foi de frontal até apraz
com olcadil
caiu de pé até que

tem que entender que tem que dar
pra receber
tem que caber pra backupar
no hd

inconformado com a derrota pro bangú
saiu de campo com o orgulho rebaixado
uma bagana da tijuca pro caju
entrou em cana e viu o sol nascer quadrado

diz o ditado que o apressado como cru
e quem não come como é classificado?
quando não sobra nem a raspa do angu
morrer de fome inda não foi interditado

riu de rivotril
foi de frontal até apraz
com olcadil
caiu de pé até que

tem que entender que tem que dar
pra receber
tem que caber pra backupar
no hd

indignado com o acréscimo dos juros
tiros deu
embebedado e caindo de maduro
o muro doeu

desencapado fio é fel de baiacu
toma tento, tem cuidado
que o perigo mora o lado
dentro
eu

Gravação caseira de uma canção que eu acabei de fazer. A música é uma homenagem a Guinga e seu violão cheio de dedos e a Aldir Blanc e suas palavras cheias de sons e sentidos. A idéia da letra surgiu a partir de um comentário do Mano Brown para a Rolling Stone de dezembro passado sobre o público dele.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

O Mel do Melhor

Publico aqui o meu Top 10, que na verdade são 13. É a lista dos discos lançados ano passado que mais me chamaram a atenção. Eu fiz a lista atendendo a um pedido do David McLoughlin da BM&A. Alguns desses discos não foram lançados oficialmente em 2009, mas resolvi incluí-los na lista porque o tempo de um disco contra-industrial é diferente. Quem trabalha dessa forma não lança disco todo ano, porque sabe que isso gera dispersão. Você não consegue circular o país e ser aprovado em todos os editais todos os anos, então precisa fazer um planejamento estratégico e 'render' o lançamento. Não há uma regra, mas a constatação é que um disco auto-produzido costuma ser trabalhado de dois a quatro anos. Em alguns casos surge a parceria com uma distribuidora depois da primeira prensagem feita por conta e risco do autor - invariavelmente numa tiragem reduzida - possibilitando uma circulação efetiva do trabalho. Além do mais eu sou analógico e faço questão de ter o disco físico em mãos. Até baixo e ouço no computador, mas se eu gosto eu compro o CD. Sendo assim em alguns casos eu acabei tendo acesso ao trabalho só recentemente, apesar do trabalho ter sido lançado a mais de um ano.

No final eu resolvi excluir dessa lista todos os trabalhos nos quais tenho alguma participação direta, seja como produtor, como compositor ou intérprete. Assim a lista fica mais isenta, apesar de eu ter uma relação pessoal com muitos dos artistas que eu listo. Essa decisão acabou me motivando a preparar um poste com todas as minhas canções gravadas por outros intérpretes. Assim que eu conseguir organizar tudo, escanear todas as capas e converter todos os arquivos para disponibilizar aqui eu publico. Prometo fazer isso ainda antes do carnaval.

Segue o Top 13:

O Circo Singular – Patrícia Polayne

www.myspace.com/patriciapolayne

O CD de estréia dessa cantora e compositora sergipana é resultado do prêmio no Projeto Pixinguinha e vem consolidar uma trajetória de 15 anos. Durante esse tempo Patrícia rodou o país com uma trupe de palhaços, fez diversos parceiros, participou de projetos coletivos e, mais do que isso, depurou seu canto e aperfeiçou seu talento como compositora. É uma das artistas mais maduras e talentosas de sua geração, mesclando elementos da tradição oral e popular com referências urbanas contemporâneas. Depois de muitos anos sem notícias reencontrei Patrícia exuberante num dos palcos off da Feira Música Brasil, em dezembro último no Recife. O que posso dizer é que os anos fizeram muito bem a ela. Quem esteve presente pode confirmar!

Balangandãs – Na Ozzetti

www.myspace.com/naozzetti

Na Ozzetti é hoje uma das maiores cantoras do país, certamente a mais criteriosa. Nesse disco onde visita o repertório da Pequena Notável, referência maior da paulista que surgiu no Grupo Rumo, temos uma mostra da possibilidade de releitura com assinatura pessoal. É prova também da capacidade de um artista sobreviver do seu trabalho com dignidade, sem fazer concessões ao grande mercado. Com 25 anos de carreira Ná prova mais uma vez que isso é possível e aponta um caminho para as novas gerações.

Bem me quer mal me quer – Érika Machado

www.myspace.com/erikamachado

Érika é a artista mais versátil da sua geração. Canta, toca, compõe, produz, cria a identidade visual do CD, do site, do cenário e, como se não bastasse, consegue ser boa em tudo o que faz. O seu segundo disco confirma as expectativas criadas a partir de sua estréia, com o premiado “No Cimento”. Érika está mais melancólica, mais triste, sem no entanto perder a capacidade de enxergar o mundo à sua volta por um prisma único e peculiar. Musicalmente mais elaborada, graças às parcerias com Cecília Silveira, Érika é o exemplo mais bem acabado da autogestão de uma carreira contraindustrial.

Bom Todo – Zabé da Loca

www.myspace.com/pifedaloca

Com mais de 70 anos de carreira, a virtuosa tocadora de pífanos Zabé da Loca chega ao segundo CD, com competente produção musical de Carlos Malta. É uma mostra vigorosa do Brasil profundo, com suas idiosincrasias e sua capacidade de se superar com criatividade e perseverança. Impossível separar o trabalho artístico da vida propriamente dita: uma mulher que viveu com seus filhos por 25 anos em uma caverna, por necessidade, no sertão da Paraíba e fez do seu pife uma forma de resistência alegre deve ser ouvida com outros olhos.

Na Boca dos Outros – Kiko Dinucci

www.myspace.com/kikodinucci

Kiko é, para mim, o compositor mais completo da cena paulistana, o que não é pouco. Seguindo a linha evolutiva do samba de Adoniram Barbosa e agregando outros elementos, principalmente os de matriz africana, ele consegue apresentar um equilíbrio raro entre a crônica urbana e a informação musical nova impressionante. Ótimo letrista e melodista inspirado, é um prato cheio para intérpretes em busca de repertório.

Tem Juízo mas não Usa – Lula Queiroga

www.myspace.com/lulaqueiroga

Lula Queiroga é, há alguns anos, uma espécie de eminência parda na música brasileira contemporânea. Referência obrigatória da cena pernambucana desde os anos 70, é mais conhecido pelas parcerias com Pedro Luís e principalmente Lenine, que já ganharam a voz de Elba Ramalho, Roberta Sá, Marina Machado e até Milton Nascimento. Mas Lula é um criador completo e inquieto, como prova esse seu terceiro disco solo, onde o letrista está mais afiado do que nunca.

Outro Sentido – António Zambujo

www.myspace.com/antoniozambujo

Ouvi António Zambujo pela primeira vez na casa de fados Senhor Vinho, em Lisboa, cerca de três anos atrás. Fiquei profundamente impressionado com a delicadeza, a elegância e a sofisticação de seu canto. Desconfiei logo que a música brasileira era referência fundamental na sua formação. Depois Caetano declarou que se João Gilberto cantasse fados soaria como António, e o Brasil começou então a ouvir falar do gajo. Este ano seu terceiro disco foi lançado aqui e vale à pena conferir, inclusive porque somente a edição brasileira contém um belo dueto com a cantora potiguar radicada no Rio de Janeiro Roberta Sá.

Sem Nostalgia - Lucas Santana

www.myspace.com/santtana

Lucas Santana é um sujeito tranqüilo e inquieto. É baiano. Mas mora no Rio. Conheci pessoalmente em Recife há alguns dias, mas acompanho o excelente blogue/site dele há muito tempo. Nesse disco ele subverte a noção de gravação. É basicamente um disco de violão e voz. Mas definitivamente não se parece com um disco de violão e voz, graças às ambientações, aos recortes, às técnicas não-convencionais de captar e processar o som do violão e da voz. Só ouvindo pra entender.

Atlântico Negro - Wado

www.myspace.com/wwwado

Wado nasceu em Santa Catarina, mas vive em Alagoas. Esse é mais um dos seus discos conceituais. Dessa vez inspirado nas idéias do sociólogo inglês Paul Gilroy. Ele mistura funk carioca, afoxés baianos, ciranda pernambucana e outras referências de matriz africana re-elaborados, numa ponte transatlântica sem preconceitos e com critério que representa o próprio fluxo e as trocas culturais entre América, África, Europa e Caribe. Esse cara é nosso contemporâneo!

Tudo que respira quer comer - Carlos Careqa

www.myspace.com/carloscareqa


Carlos Careqa é curitibano e vive em São Paulo. É um dos artistas mais irreverentes que eu conheço. Crítico mordaz da indústria, da contra-indústria, dos mecenatos, dos independentes, da própria atividade e, como não poderia deixar, dele mesmo. Mas tudo com um humor muito perspicaz e sarcástico. Já vi Careqa expulsar do teatro, com a categoria de um Leão de Chácara e sem usar as mãos, um mala que estava incomodando todo mundo com gritos e comentários inconvenientes durante sua apresentação. A performance enérgica e furiosa foi tão convincente que o cara saiu pianinho e todos puderam assistir ao show tranquilamente. Enfim, o cara é diversão garantida. O disco conta ainda com participações luxuosas de Juliana Perdigão, Mônica Salmaso, Maria Alcina, Marcelo Pretto e do saudoso Zé Rodrix, no seu provavelmente último registro em disco!

O Chão sem o Chão - Rômulo Fróes

www.myspace.com/romulofroes

Rômulo Frões é um roqueiro que gosta de Nelson Cavaquinho. Ou então é um sambista que ouve The Clash. Ele me mandou seu disco duplo e eu recebi o tijolo ansioso pra confirmar ou desmentir o que eu já vinha ouvindo nas matérias ou nas suas próprias entrevistas. Já era fã desde que ouvi Cão. Este é de digestão mais lenta, exige mais disposição. Mas confirmou a expectativa de um artista em progressão!

Senóide – Axial

www.myspace.com/projectaxial

O Axial é um trabalho iniciado pela cantora e compositora Sandra Ximenes e pelo multi-instrumentista e compositor Felipe Julian. Com o passar do tempo eles foram agregando outros parceiros musicais, como o Leonardo Correa. Música eletroacústica, pesquisa de tradições populares e poesia contemporânea. Ou então música autoral, orikis yorubás, romance medieval e vodus do Haiti. Mas nada disso é gratuito. O trabalho que fazem de texturização sonora é impressionante. Eles criam soundscapes, malhas e ambientações tão delicadas e ao mesmo tempo tão pungentes que fazem acreditar que a música digital é orgânica.

Do Oiapoque a Nova York – Renegado

www.myspace.com/arebeldia

Renegado representa a possibilidade de renovação do rap brasileiro. O fato de ser da periferia de Belo Horizonte diz muito sobre esse fato. Da incorporação de ritmos regionais como o congo e o moçambique às influências caribenhas, como a cumbia colombiana e a rabanera cubana, ele cria uma malha sonora complexa para destilar uma poesia contundente e provocadora. O resultado é instigante, bom de dançar e de ouvir. Crítico sem cair no lugar comum do discurso ortodoxo e vazio do gangsta por exemplo, pop sem descambar para o pueril e alienado, Renegado segue a seu modo os princípios básicos da cultura hip hop, equilibrando-se no fio da navalha!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Caiu na Rede





Encontrei na rede trechos da gravação do show que fizemos em 2008 na sala João Ceschiatti dentro do projeto Música Independente, transmitido pela Rede Minas. Coloco aqui o video dessas duas canções do disco Autófago. Embora a qualidade do som e imagem deixe a desejar, dá pra ter uma idéia. Aqui há outras, para quem quiser!

sábado, 2 de janeiro de 2010

Eles se atrevem a dizer do que é feito o samba

Publicado na Revista do Itaú Cultural

Seis músicos (que não são sambistas) falam de suas memórias afetivas em relação à música do brasileiro e dizem o que é o samba para eles

Por Augusto Paim e Marco Aurélio Fiochi


O grupo Los Hermanos, no disco Ventura (2003), faz o seguinte questionamento na letra da canção "Samba a Dois": "Quem se atreve a me dizer do que é feito o samba?". Afinal, só os sambistas têm o que dizer sobre o samba? Ou todos os brasileiros podem opinar sobre esse som?

A Continuum procurou artistas de valor reconhecido em estilos musicais distintos e lhes propôs a pergunta: o que é o samba para você? O gaúcho Vítor Ramil, cuja "estética do frio" está ligada à cultura do Prata, fala do Carnaval de Pelotas como fundamental na formação da sua visão de mundo e estética. Por caminho semelhante vai o paulista Maurício Pereira, que aponta esse estranhamento cultural e social em quatro diferentes momentos de sua vida. O alagoano Hermeto Pascoal fala do samba como mistura e componente da chamada "música universal". O pernambucano Jorge Du Peixe, do Nação Zumbi, cria um mundo futurista, no qual o samba segue sendo fundamental na vida do brasileiro. O bandolinista carioca Hamilton de Holanda liga-o ao cotidiano do povo. E o mineiro Makely Ka relata uma relação pessoal com o gênero atravessada por fases que vão do amor à rejeição.

O Carnaval de Pelotas

"O samba responde pela minha experiência mais remota de emoção e prazer musical, artístico e estético. Digo isso não porque venho me especializando em combater estereótipos. Para mim, nascido na região tida como a mais 'branca" do país e que falo em estética do frio num país mundialmente conhecido como tropical, o samba é mesmo coisa de origem, de infância, de formação. Coisa de sempre, para sempre.

Sou natural de Pelotas, Rio Grande do Sul, cidade que, em determinado momento de sua história, contou mais negros que brancos entre seus moradores; cidade que teve as primeiras escolas de samba do estado e um dos melhores carnavais do país (antes que o conceito de carnaval-espetáculo se disseminasse, levando à padronização quase total do Carnaval das regiões). Não foi, portanto, uma experiência à toa. Tampouco única, pois o Carnaval nunca é uma experiência solitária. Por exemplo, para não ficar entre meus conterrâneos: o percussionista argentino Ramiro Musotto, recentemente falecido, me disse certa vez que foi em Pelotas, quando criança, de passagem com os pais, que ele conheceu o samba, os tambores e os negros, e que isso foi determinante em sua vida.

Naquela época, o Carnaval de rua de Pelotas não tinha cordões de isolamento. Na rua estreita, em meio à decoração e às luzes, o público ficava junto aos passistas, aos destaques, aos homens vestidos de mulher, aos mascarados, aos bonecos gigantes, o que fosse, e, glória absoluta, junto às baterias. Quando os tambores passavam por mim, eu chorava. O estremecimento se dava em todos os sentidos. Aquilo mexia mais que apenas com o meu corpo, dava forma à alegria mais profunda. Lembro da sensação e da consciência da sensação, rua de mão dupla por onde evolui o processo criativo de todo artista.

Depois do samba vieram as experiências do jazz, com o contrabaixo acústico de Tom & Jerry a ronronar em meu peito no escuro do cinema, e do tango, com meu pai cantando a chorar. O resto não é silêncio." Vítor Ramil

Da enciclopédia galáctica da Afrociberdelia. Cap.: 003. Tão longe, tão perto
"Vi que nas periferias das grandes cidades do Brasil ainda residem resquícios da boemia antiga, da diáspora africana espalhada em novos quilombos. De um velho drama que tem como protagonistas a miséria e o desencanto. Desencanto floreado, entorpecido, com melodias nada simplórias... raiz nacional, resistência cultural, a memória de um povo que dribla as mazelas do dia a dia com um sorriso que vira mote e enredo. Grito maior da baixa voz dos desfavorecidos... que traz os mistérios de suas origens... do Recôncavo Baiano, passando pelos pagodes nos morros, que acendem e fazem o deleite do homem comum nas favelas, e sem demora descendo para o asfalto, fazendo dos clubes as telas... na Zona da Mata pernambucana, palco dos maracatus de baque solto, do esquema novo de Jorge Ben, do esquema noise da Mundo Livre S/A. Ainda escuto, seja em caixa de fósforos, seja em pandeiro, faca no prato ou no partido-alto, ecoando aos quatro cantos... Lembrando Donga, Candeia, João do Vale, Nelson Cavaquinho, Cartola, Pixinguinha, Bezerra da Silva, a velha guarda e a nova escola que compartilharam e compartilham a dor e a delícia em forma de canto ritmado, sincopado e alterado de um povo de sangue quente e alma fervente. Nesse solo, ritmo, poesia e dança são mais que urgentes! A memória gravada ou gritada nos acordes e batuques diários que acordam esquinas e emolduram desejos, esperanças e conquistas... tão longe, tão perto... simples, forte, original e eterno... isso é o samba." Jorge Du Peixe

Naquela mesa
"O samba é a maneira que o povo encontrou de ser feliz em meio a tantas situações complicadas. Ele faz as pessoas transformar a tristeza numa coisa bonita. É o riso e o choro ao mesmo tempo. Nelson Cavaquinho, por exemplo, fazia melodias alegres e letras tristes, meio tenebrosas. Mas, quando se ouvem seus sambas, se vai para o céu, é uma coisa divina.

Minha relação com o samba aconteceu por meio do choro. Eu toco bandolim por causa do samba-choro "Naquela Mesa", que Sergio Bittencourt fez para Jacob do Bandolim, seu pai, nos anos 1970. Eu tinha 5 anos em 1981, quando minha avó faleceu. Meu avô adorava essa música, e era louco por sua mulher. Então, ouvir esse samba era uma forma de ele sempre se lembrar dela. Ele me deu um bandolim no Natal daquele ano, e isso definiu minha vida profissional. Fico emocionado toda vez que toco essa música." Hamilton de Holanda [depoimento à Continuum e trecho de entrevista à Rádio MPB FM, Rio de Janeiro, em 29 de julho de 2009]

Samba, ame-o ou deixe-o
"O samba para mim é um processo dialético! Na infância ele fez parte da minha vida como uma referência genérica. Ouvia no rádio, na rua, nas festas populares. Era uma afirmação de identidade, uma forma de resistência cultural − assim como a música nordestina − à imposição de uma música que representou no plano estético aquela pasteurização dos teclados e das baterias e no plano ideológico a negação de qualquer elemento regional autóctone. O segundo momento foi de negação. Coincide, de alguma forma, com a descoberta da farsa da autenticidade genuína do samba como manifestação popular. Isso que naquele momento de reação adolescente eu apenas intuí, aquela forçação de barra para fazer do samba uma instituição e que mais tarde confirmei, ou seja, o projeto do governo Vargas nos anos 1940 de transformar o samba em símbolo nacional. Há dois livros muito interessantes, de certa forma antagônicos, mas por isso mesmo complementares, que dissecam esse fato: “O Samba Agora Vai...”, do Tinhorão e “O Mistério do Samba”, do Hermano Vianna. Hoje acho que cheguei à síntese dialética. Definitivamente não sou sambista. Mas não nego sua influência no meu trabalho. Até tenho uns sambas. Quer dizer, não me sinto vinculado à tradição do gênero e não tenho nenhum compromisso com a instituição sagrada dos sambistas. Por outro lado, eu me sinto à vontade para compor utilizando elementos dessa linguagem, sem nenhum receio ou cerimônia. E não peço desculpas!" Makely Ka

Quatro pequenas lembranças: no espírito, na cabeça, no coração, no corpo
"Para situar: eu, paulistano, branco, classe média, nascido em 1959, italiano e português. Na cabeça, Beatles e jovem guarda. O samba não era sempre presente, mas, sempre quando presente, trazia susto e maravilha.

Lembrança 1: começo dos 1970, Corinthians no Pacaembu. A torcida do Fluminense traz uma charanga lá do Rio. Tamborins. Um samba mais leve, mais agudo, o andamento mais relaxado, uma respiração bem diferente da que costumava ouvir ali, mais rápido, mais forte, muita caixa e repinique. Senti como se pela primeira vez tomasse contato com algo mais roots: o samba no espírito do lugar onde ele nasceu.

Lembrança 2: Demônios da Garoa. Paixão total. O samba no gás: rápido, estridente, o intervalo sensacional nas vozes, as histórias do Adoniran. Uma coisa que me chamava a atenção no samba paulistano eram esses temas tão simples, conversas da rua, do dia a dia, o sotaque Brás-Mooca-Cambuci dos Demônios. E a pegada... Anos atrás toquei com eles, perguntei pro Ventura do 7 cordas: "rock-and-roll?" Ele deu risada, maroto, não respondeu. Será?

Lembrança 3: na adolescência me apresentaram Cartola. E me caiu a ficha da tal dolência, de que tanto se fala. O canto, o andamento, o jeito de tocar, o timbre da voz, a grandeza metafísica: humano demais. Com Cartola, o acesso à nobreza da negritude carioca. Um dia, sem querer(?), fui ver um show do Nelson Sargento na Funarte, em São Paulo. O cantor era o Roberto Silva. Maravilhei-me com a possibilidade infinita da finesse na expressão popular. Estava tudo ali, economicamente, o máximo de arte com um mínimo de matéria e esforço. Um traço do Matisse...

Lembrança 4: um belo dia me vejo em Santo Amaro da Purificação, Recôncavo Baiano, para entrevistar a Dona Edith do Prato e tentar capturar um pouco do espírito do samba de roda. O samba de quintal, sutil, sexual, sensual, sambado por gente dos 8 aos 80. Um samba doce e tão miúdo que eu, sudestinamente branco, quase precisei duma lupa para enxergar... Sola do pé, palma da mão, o sorriso, a roda, o quintal, a música tocada com descanso. Aquela música me explicou geografia: o calor, a umidade, as matriarcas, a região por onde a África entrou no Brasil, a pimenta, a brincadeira coletiva. Enfim, um pouco do mormaço do século XVII." Maurício Pereira

A música universal
"O samba influenciou minha música e vai influenciar sempre porque faz parte da minha essência musical e, modéstia à parte, eu o toco muito bem, mas sem padronização e sem preconceito. Toco samba também em 7/4, 3/4, 5/4... O samba é um ingrediente importantíssimo na mistura que marca a minha "música universal" e é, por si só, um estilo híbrido que concentra essas características da mistura.

Meus primeiros contatos com o samba foram acompanhando cantores nas rádios do Recife e também tocando na noite no Rio e em São Paulo, com Miltinho, Moreira da Silva, Ciro Monteiro, Alvaiade, Jair Rodrigues... Eu tocava nas boates e quando eles vinham dar uma canja os acompanhava. Quando eu era criança no Nordeste, as pessoas iam lá em casa e nos convidavam para o "samba", ou seja, para a festa, para a reunião com música... E lá eu já ouvia: "Ô Zé, para que você me quer, eu vou pro samba mas sustento dez mulher".

O samba de antigamente era mais 'quadrado'. Então, quem só quer conservar desse jeito fica para trás. É preciso evoluir. Mas misturar mal é pior. O samba abre vários caminhos para a criação, para a mistura, assim como o forró. Mas é preciso deixar o conservadorismo de lado." Hermeto Pascoal

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Ano que vem vai melhorar!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Assembléia Livre

Vamos realizar, com o apoio da FUNARTE/MinC, a nossa assembléia livre para levantar propostas e indicar três representantes que vão compor o a Delegação Estadual e o Colegiado Eleitoral da Pré-Conferência Setorial da Música, a ser realizada em Brasília no mês de fevereiro de 2010.

Qualquer pessoa com atuação no setor musical vai poder se candidatar a uma das três vagas de titular. As candidaturas deverão ser feitas no local, bem como a defesa de cada candidato, que terá 3 minutos para apresentar seu histórico e suas propostas. Após a defesa a plenária entrará em votação para eleger os três delegados do setor de Música de Minas Gerais.

Seguem abaixo os critérios mínimos que deverão orientar a indicação dos delegados:

Número de instituições atuantes na respectiva área técnico-artística ou de patrimônio cultural que subscrevem a indicação do postulante (não cumulativo)

de 3 a 5 - 5 pontos
de 6 a 8 - 10 pontos
mais de 8 - 15 pontos

Experiência em instâncias de participação (Comissões, Fóruns e Conselhos)

de 2 a 4 anos - 5 pontos
de 4 a 6 anos - 10 pontos
mais de 6 anos - 15 pontos

Atuação na área técnico-artística ou de patrimônio cultural

de 2 a 4 anos - 5 pontos
de 4 a 6 anos - 10 pontos
mais de 6 anos - 15 pontos

Atuação em redes sociais específicas

de 2 a 4 anos - 5 pontos
de 4 a 6 anos - 10 pontos
mais de 6 anos - 15 pontos

Os nomes indicados serão subscritos pelas cinco entidades que compõe o Fórum da Música de Minas e encaminhados para a FUNARTE. Após o pleito os delegados eleitos deverão ainda, obrigatoriamente, se inscrever no site do MinC até o dia 15 de fevereiro com o propósito de confirmar sua participação no processo eleitoral por meio do preenchimento de formulário digital a ser disponibilizado no sitio eletrônico:

www.cultura.gov.br/cnpc


Assembléia Livre

Museu Inimá de Paula
A partir das 18h30

Rua da Bahia, 1.201 - Centro - Belo Horizonte, MG

Tel.: (31) 3213-4320 e 3222-9798

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Música para além das montanhas

Jornal O Tempo (06 de dezembro de 2009)
Por Daniel Barbosa

Política pública

Programa pioneiro para exportação de artistas mineiros completa primeiro ano de vigência coberto de êxito

A despeito de toda a sua diversidade, a música produzida em Minas Gerais está falando uma mesma língua - que, aliás, é perfeitamente entendida pelo poder público. Lançado no primeiro semestre deste ano, o programa Música Minas - fruto da parceria entre o governo do Estado e o Fórum da Música, que congrega cinco entidades representativas do setor - cumpriu seu primeiro ano de vigência com pleno êxito. A Secretaria de Estado da Cultura (SEC), as entidades que compõem o Fórum - a saber: Associação dos Músicos de Minas Gerais (Ammig), Sociedade Independente da Música (SIM), Associação Museu Clube da Esquina (Amuce), Cooperativa dos Músicos de Minas (Comum) e Circuito Fora do Eixo Minas (CFE) - e os artistas beneficiados nos dois editais lançados pelo programa concordam que a iniciativa, pioneira em todo o Brasil, é um sucesso.

No próximo dia 21 será realizada uma audiência pública, aberta a todos os interessados, para apresentar os números do programa, avaliar os resultados e projetar sua continuidade para 2010, o que, segundo Nestor Sant’Anna, representante da SEC para interlocução com o setor da música, já está acertado. Um primeiro levantamento evidencia que o programa cumpriu seu objetivo: exportar a música mineira para o resto do país e para o mundo. Com a dotação de R$ 1,55 milhão - dinheiro público repassado pela SEC para o Fórum da Música -, foram criados dois editais, um de circulação e um de passagens. Este último selecionou 37 propostas que geraram aproximadamente 170 passagens aéreas para apresentações de músicos mineiros no Brasil e no exterior.

Pelo de circulação, cada um dos 25 grupos e artistas - divididos nas categorias renome, destaque e revelação - que tiveram as propostas aprovadas pôde levar seu trabalho, com toda a estrutura necessária, para ser apresentado em três diferentes capitais do país. Dessa forma, eles foram alocados em grandes festivais, como o Calango (Cuiabá), o Mimo (Olinda) e o Varadouro (Rio Branco). Além disso, foram fechadas noites mineiras em locais como o Auditório Ibirapuera e o Sesc Pompeia, em São Paulo, o Santander Cultural, em Porto Alegre, e o Centro Cultural Dragão do Mar, em Fortaleza.

O programa ainda possibilitou que representantes do Fórum participassem de importantes feiras, como Porto Musical, em Recife, Feira da Música de Fortaleza, Mercado Cultural, em Bogotá, Womex, na Dinamarca, e Bafim, na Argentina. Para as ações de exportação, foram produzidos mil catálogos trilíngue contendo informações sobre 107 artistas e grupos e um documentário sobre a cena musical mineira.

“O programa foi um sucesso, Minas se tornou referência no Brasil inteiro com ele. Fomos convidados para apresentar um painel sobre essa ação pelo país afora”, diz Rose Pidner, representante da Ammig no Fórum e diretora da Veredas Produções. “Minas é o principal exemplo de unificação do setor da música no Brasil”, aponta o cantor e compositor Vitor Santana, da SIM, destacando o diálogo convergente como razão do êxito do programa.

Sucesso do programa se deve ao diálogo entre as entidades

A apresentação dos resultados e a avaliação do programa Música Minas em 2009 só vai acontecer oficialmente na audiência do próximo dia 21, mas, nas reuniões semanais que realizam, os integrantes do Fórum da Música já puderam levantar alguns pontos passíveis de ajustes para uma próxima edição. Mas, sobretudo, eles exaltam o sucesso da parceria com o poder público, viabilizado graças à sintonia sem precedentes que hoje há entre as entidades que representam os músicos do Estado. “Já brigamos muito no passado, agora é hora de afinar o diálogo para seguirmos em frente”, diz Rose Pidner, da Ammig.

Da parte da Secretaria de Estado da Cultura (SEC), os motivos para comemoração também superam em muito eventuais arestas a serem aparadas. “A análise que faço é a seguinte: esse era para ser um programa episódico, para acontecer apenas uma vez, mas os resultados foram tão interessantes que o projeto vai ter continuidade”, diz Nestor Sant’Anna, da SEC, acrescentando que a projeção de dotação orçamentária para 2010 será, no mínimo, equivalente à deste ano. “O secretário (Paulo Brant) está fazendo um esforço enorme para somar ganhos a esse montante”, ressalta.

Convergência

Ele destaca que a convergência de interesses e a organização com vistas à sua consecução foram o grande trunfo do programa. “Na minha opinião, o mais importante é terem se sentado em torno da mesma mesa o poder público e as cinco entidades representativas da música em Minas mais destacadas. Esse diálogo, que sempre foi difícil, hoje é absolutamente harmonioso. Isso foi o que possibilitou que esse projeto fosse referência no Brasil inteiro. Esse modelo que construímos está sendo reivindicado por todos os Estados do país”, diz.

Makely Ka, da Comum, também destaca o papel pioneiro e a posição de protagonismo que Minas ocupa hoje no que diz respeito às ações de fomento à cena musical. “A mobilização acontece no país inteiro, temos uma rede de relacionamento nos 27 Estados da Federação e estamos muito avançados nos debates sobre esses mecanismos. O Fórum da Música tem uma presença de peso dentro da construção desse processo, ele é uma referência, pela nossa capacidade de organização”, aponta.

“O programa ampliou muito a possibilidade de atuação dos artistas mineiros fora de Minas e mesmo fora do Brasil. Com certeza cumpriu os objetivos, até mais do que nossa expectativa inicial”, diz Cláudia Brandão, diretora da Amuce.

Ela e outros integrantes do Fórum destacam o viés de estruturação do Música Minas, na medida em que os dois editais do programa estiveram focados nas possibilidades de intercâmbio e parcerias. Vitor Santana aponta as que foram firmadas com as unidades do Sesc em São Paulo, com a Cinematheque, no Rio de Janeiro, e com o Centro Cultural Dragão do Mar, em Fortaleza. Makely ressalta as parcerias internacionais, com o governo da região da Galícia, na Espanha, e com o teatro Portimão, em Portugal, para apresentações de artistas mineiros.

Resultados. “Na audiência do dia 21 vamos mostrar todas as conquistas, as feiras, o catálogo, o documentário, falar sobre as parcerias com outros países e outros Estados. Vamos fazer um balanço real, mas dá para adiantar que o programa foi muito acertado”, adianta Vitor, acrescentando que o encontro será, também, uma pré-conferência de Minas para a Conferência Nacional de Música, em abril de 2010.

Avaliação

Cada um dos integrantes do Fórum entrevistados, bem como Nestor Sant’Anna, tem sua percepção sobre o que pode ser melhorado. Cláudia Brandão, da Amuce, alude à possibilidade de o edital de passagens cobrir, também, hospedagem. Rose Pidner acha que é preciso desburocratizar os editais e melhorar a comunicação externa. Vitor Santana é da opinião que, no caso do edital de circulação, o Fórum tem que se desincumbir das funções de produção, sem, no entanto, deixar de ser uma chancela.

No que diz respeito ao edital de passagens, Makely Ka acha que ele deveria contemplar a possibilidade de turnês. “Como está, você tem passagens para ir e voltar de um mesmo ponto”, diz. Nestor Sant’Anna acha que o prazo para apresentar propostas pode ser encurtado em relação à data da apresentação para a qual o artista é convidado. “São percepções comuns, de coisas que podem e devem ser ajustadas numa próxima edição”, aponta. (DB)

Números
37 propostas
foram selecionadas pelo edital de passagens
170 passagens
foi o número aproximado que o edital destinou a grupos e artistas
25 grupos e artistas
foram selecionados pelo edital de circulação
75 shows
é o número total de apresentações previsto para os selecionados
49 shows
já foram realizados
107 grupos e artistas
estão no catálogo do programa

Contemplados também saúdam o programa

Se para os gestores do programa os resultados são dignos de comemoração, para os beneficiados não seria diferente. Aprovada no edital de passagens, a banda Eminence pôde fazer uma turnê com 26 shows pela Europa. “Somos uma banda de heavy metal e também representamos a música de Minas. O programa entendeu isso”, diz o guitarrista Alan Wallace.

O Porcas Borboletas, de Uberlândia, teve duas propostas aprovadas no edital de passagens, o que possibilitou sua participação na Feira da Música, em Fortaleza, e no festival Casarão, em Porto Velho. “É uma coisa que, sem dúvida, potencializa a música de Minas”, diz o vocalista Enzo Banzo.

Aprovado no edital de Circulação, o rapper Renegado já se apresentou no Rio de Janeiro e em Salvador e ainda tem outra capital – possivelmente Recife – programada no roteiro previsto. (DB)

domingo, 15 de novembro de 2009

Autófago Acústico em Portugal

Autófago Acústico no Teatro Municipal de Portimão
21 de Nov 21h30
Black Box | 1h30 min | M/16

Preço: 10.00€ - Desconto 50% Passaporte
Sénior, Cartão Jovem Municipal, Cartão
Municipal de Pessoa Portadora de Deficiência
Jovens até 35 anos: 5.00€
Descontos não acumuláveis

Programação aqui!

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Ensaio Aberto

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

WOMEX 2009

A parada agora é Copenhagen, capital do Reino da Dinamarca! Estou aqui participando da WOMEX, uma feira de música que acontece anualmente em algum país europeu. São mais de três mil inscritos de mais de 90 países. Hoje foi o primeiro dia e desta vez estamos com um estande, dividido com São Paulo e Espírito Santo.

A feira acontece durante todo o dia e à noite os shows-case de artistas de todo o mundo. O foco aqui é a música contra-industrial, que alguns chamam de independente, outros de alternativa, etc.

Faz muito frio e começa a escurecer a partir das 17h. Estamos aqui desde domingo e hoje foi o primeiro dia em que saiu um sol tímido. Estamos a meia hora da Suécia e ontem fomos almoçar em Malmö. Nosso real vale aproximadamente três coroas dinamarquesas, ou krones. Ou seja, a relação com o euro é de sete para um, e isso causa alguma confusão no início quando precisamos fazer a conversão de cabeça para calcular o valor relativo de algum produto ou serviço. Em geral é tudo muito caro. Uma garrafa de 200 ml de água por exemplo custa 22 krones, ou seja, mais de 7 reais. Melhor comprar uma Calsberg que custa 20 krones. Sim, a cerveja é mais barata que a água e é uma das melhores do mundo. Coisas do Reino da Dinamarca!

Amanhã quero conhecer Christiania, uma comunidade autogestionada que surgiu em meados dos anos 70 a partir de princípios anarquistas. A cidade-livre, como é conhecida, resiste à pressão do governo que insiste desde os anos 80 em desalojar seus habitantes dos imóveis ocupados sob a alegação de que ali é o principal ponto de tráfico e de consumo de drogas pesadas - leis-se heroína - do norte da Europa. Hoje a situação ainda é instável, mas é fácil comprar haxixe e skank pelas ruas segundo me disseram. Depois da visita eu conto mais...

domingo, 18 de outubro de 2009

Autófago Acústico em BH

Vou me apresentar na próxima terça no projeto Para Todos do Conservatório da UFMG com uma formação basicamente acústica de violões, violas, e percussão. Nesse show, que é um desdobramento do pocket que eu fiz na abertura do Tom Zé no Palácio das Artes e no CCBB do Rio e de Brasília, todos no primeiro semestre, aproveito para apresentar, além de novas versões para canções de meu primeiro álbum solo, Autófago (Selo Musical / 2007), algumas inéditas que vão integrar o meu próximo trabalho, Cavalo Motor. O disco está em fase de pré-produção e a previsão de lançamento é para março de 2010. Vou estar acompanhado por Guilherme Castro (viola, violões e vocal), Rafael Azevedo (violões, baixolão e dobro) e Leo Dias (percussões).

Vai ser um prazer encontrar vocês lá!

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Tupi na Rede

TUPI NA REDE (Minax & M.Ka) - Versión NORIKO YAMAMOTO


Video enviado pelo meu parceiro Leo Minax de uma canção nossa interpretada pela cantora japonesa Noriko Yamamoto no Café Dufi, em Nagoya. É curiosa a interpretação que ela dá à música, com seu sotaque nipônico dando outra dimensão para palavras e expressões da língua tupi. No refrão ela faz uma brincadeira, substituindo a palavra abacaxi por tebasaki, que significa "asa de frango"!

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Autofagia – Maturidade como consciência de si

Por Magno Córdova.

“Meu compromisso é com meu próprio comprometimento”.
(Makely in “Autófago”)


Comentar o Autófago é quase que fazer uma checagem do corpo de Makely. Antropofagicamente, devorar cada órgão, cada célula, cada partícula. Como na esfinge, “me decifra ou te devoro”. Na audição do disco, conceda-se à devoração. “Não há saídas”, diria Itamar Assumpção, por mais que a idéia de antropofagia na canção popular seja hoje corriqueira. O Autófago vem colocá-la em evidência sob nova ótica: devoro-me a mim mesmo, pleonasmo meu e questão muito bem posta - poética e musicalmente - pelo artista. Proposta nada egocêntrica, como poderiam pensar os apressados, já que sugerida também àqueles que queiram apreendê-lo, ouvidos e coração atentos e abertos. Para tanto, “desliguem os aparelhos celulares”, dirá, por sua vez, Moreno, filho de Makely com a cantora Maísa Moura. Pois, até mesmo a presença desse filho recém chegado, na faixa de abertura do disco, me pareceu plena de significados. Todavia adianto: Autófago não é um disco de canções de ninar.

Sobre o que ouço, permito-me um delírio sócio-filosófico que pode ser considerado pedante, como tantos delírios dessa natureza: no universo das questões relativas ao que seja Brasil, sob o fio da canção popular, o Autófago soa como signo de maturidade retomada: não me refiro a do artista em questão, a meu ver ascendendo em permanência; me remeto à canção realizada no Brasil e – por que não? – estendo essa minha impressão ao estado de coisas do país. Não se trata de “retomada de linha evolutiva”, fórmula falastrona e presunçosa dos que ainda a professam. Digo do reconhecimento da consciência de que somos o que somos. Penso, por exemplo – e paradoxalmente –, em um Paulo Leminski ciente da isonomia dos egos: “isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além”, estampada em bela camiseta que me foi presenteada, há anos, por Renato Negrão, parceiro musical de Makely. Portanto, maturidade aqui quer dizer consciência de si.

Por outro lado, pra além do pilar antropológico de biombos/mediações culturais, é preciso que se diga: a generosidade de Makely extrapola o objeto autoral que lhe pertence. Ela – essa generosa iluminação – está na postura com que, como um aedo andarilho, ele percorre o território do país carregando nas costas, literalmente, um volume de voz de gente e de instrumental diverso que, compactada, leva a cantar e tocar, onde quer que se encontre. Música que adota e aplica, que representa e lança, onde caminha e troca. E essa nobreza é incomum. Ele é nobre na relação com os pares.

Adiante disso, o que me fascina e causa incômodo são especialmente as canções do Autófago que me lançam em introspecção. Uma introspecção não melancólica, é bom que se diga. E isso – o incômodo –, de aparente contradição, é um bom sinal entre os critérios que considero em minhas audições. Justamente para o que parece ser um contraponto, ou uma dimensão individual daquela nobreza de que falei anteriormente. Há, como disse, canções no Autófago que me levam pr’um lugar que, involuntária e episodicamente, pratico; que só algumas canções são capazes de ativar em mim. Espaço do qual, no entanto – e, pela razão alegada -, não possuo o menor controle de onde se situa. Um lugar que não é familiar, mas é íntimo. Que não é estranho, mas misterioso.

“Plutão” é distante, penso. Será esse o lugar? A crer no que me ocorre quando ouço a canção de Makely com esse nome, sim. Melodicamente intimista, o texto de “Plutão”, por sua vez, é capaz de nos ensinar que não é tão grave assim viver só. Ser só, aqui, não constitui uma apologia à solidão, ao abandono, ao isolamento. Ao contrário, em sua leitura do ser só, Makely se reconhece no outro, na certeza de que o outro está, apesar de ausente. E tal ausência não causa qualquer transtorno: “não sinto mais falta de ar se você não vem”, “eu fico bem”. É essa identificação (ou seria mais apropriado pensar identidade?) que destaco do Autófago. É por aí que a evoco – a “Plutão”, de Makely – que, a meu ver, contribui para repensar as fronteiras ideológicas que historicamente apartam em dicotomias o indivíduo e o coletivo. Alguns poderiam dizer tratar-se de “antagonismos em equilíbrio”: “agora até mesmo quando bebo água a mágoa dessa sede me satisfaz”. A sonoridade de “Plutão” – mais precisa impossível – arremessa, no entanto, pra além do planeta, praquele canto misterioso de que falei, parte do exercício da introspecção.
Assim, também, me afeta “Equinócio” (que sacada sensacional do rio das velhas), de sonoridade intrigante e poesia no mesmo pé: quanta musicalidade reunida em vozes, texto e instrumentos. Quanto som “incômodo”, instigante. Quem disse que a noção de harmonia necessariamente mantém as coisas no lugar, em equilíbrio?

Mas não creio que seja o caso de transformar este comentário numa burocrática receita de audição, enumerando referências musicais e poéticas que as canções do disco Autófago me sugerem. Considerando as renovadas descobertas que cada escuta me traz – e “Autófago”, a canção, de marcante registro vocal e instrumental, é rica nisso –, aconselho o compartilhamento dessa com a experiência de quem o queira. Digo, pra ilustrar, que ouvir o disco do Makely às vezes bate como caminhar num final de tarde e de chuva de um sábado da adolescência pela rua da Bahia até a avenida Afonso Pena, em Belo Horizonte. Numa época em que o Cine Metrópole ainda existia. Não dá pra sair ileso.

PS 1: creio ser oportuno dizer que o Autófago emparelha com O barulho do sol do meio dia, de Marcus Dias e Pantico Rocha, como os dois discos mais ouvidos por mim no ano que findou;

PS 2: Makely, antes mesmo do Autófago, passou a integrar, numa classificação minha, o time de artistas formado por Clodo, Climério, Clésio, Brandão, Torquato Neto, Naeno, Maria da Inglaterra. Qual é a lógica? São músicos, intérpretes, compositores nascidos no estado do Piauí e muito bem-vindos ao meu aparelho de som;

Magno Córdova é mestre em História pela UnB, professor da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes, em Brasília, membro da Comissão Mineira de Folclore e pesquisador de História da Música no Brasil.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Para quem estiver em São Paulo!

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Conferência Livre de Música

Estou em Brasília participando das reuniões da Rede Música Brasil, um conselho formado pelas principais entidades representativas da cadeia produtiva da música no país. Estamos aqui nos organizando para a realização da Conferência Nacional da Música, que vai acontecer no final do ano em Recife, durante a Feira Música Brasil (que está com o edital aberto para insrição das bandas e artistas que serão selecionados). O evento acontece dentro da programação do Porão do Rock com o apoio do Ministério da Cultura e da FUNARTE.

Estamos construindo um documento que será finalizado na conferência do final do ano com as propostas do setor para a Conferência Nacional da Cultura, marcada para março do ano que vem. É lá que vai ser consolidado o Plano Nacional da Cultura, com a definição das diretrizes das políticas públicas culturais para o Brasil pelos próximos 10 anos.

Por definição, o que estamos fazendo aqui é uma Conferência Livre de Música, que é quando um grupo de 25 ou mais pessoas resolvem se juntar para discutir sobre um tema de forma objetiva. Nela, os diversos elos da cadeia produtiva dialogam, apresentam as dificuldades inerentes às suas profissões e buscam possíveis soluções a curto, médio e longo prazo. Nesse sentido cara área pode realizar sua conferência livre e construir propostas para serem levadas para a conferência nacional. É um movimento inédito para o setor musical, historicamente desarticulado e desmobilizado. O pessoal do cinema está se movimentando faz tempo, o teatro e a dança também. Ainda não vi nenhuma movimentação do pessoal da literatura. Será que vamos deixar passar o bonde da história mais uma vez?

sábado, 12 de setembro de 2009

Rato do Subsolo

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Lançamento Revista de Autofagia 2 e 3


Dia 10 de setembro de 2009 (quinta-feira) a partir das 20h acontece o tão aguardado lançamento dos números 2 e 3 da Revista Autofagia. O evento será no Auditório da Escola Guignard, em Belo Horizonte – Brasil.

Haverá uma mesa de debates com os editores falando sobre o processo de edição da revista. Logo após o debate, serão exibidos vídeos e acontecerá um sarau com performance de Leo Gonçalves e Benjamim Abras, projeção de imagens de Marcelo Terça-Nada, leitura de poemas por Sérgio Fantini e outros colaboradores da revista. Todos os presentes estão convidados a participar da festa-sarau.

A Revista de Autofagia é um projeto desenvolvido desde 2004 por mim e pelo Bruno Brum. Na sua terceira edição, a publicação que reúne poesia, fotografia, artes gráficas, música, tradução, ensaio, cartum e uma variedade de outras manifestações artísticas conta já com um time de mais de cinquenta colaboradores de todo o país.

Referência no mercado editorial brasileiro, onde as raras publicações do gênero não costumam passar da primeira edição, a Revista de Autofagia vem colhendo elogios tanto de escritores consagrados como de novos criadores que buscam nela um espaço para a divulgação de seus trabalhos.

Com um projeto gráfico arrojado e um cuidado editorial que lhe garantem um lugar na estante – ao contrário da maioria das revistas que vai para o cesto – ela tem propositadamente uma periodicidade irregular, o que confere à publicação um charme adicional, gerando expectativa e especulações sobre as próximas edições.

O primeiro número foi publicado em maio de 2006. Os números 2 e 3 estão sendo publicados agora.

Conteúdo

O número dois da revista tem dossiê com o poeta Renato Negrão, desenhos de Sandro Saraiva, colagens de Vítor Martins Leal, poemas de Elisa Andrade Buzzo, Bruno Brum, Bernardo Amorim, conto de Hans Henny Jahnn traduzido por Marcus Tulius Franco Morais, entrevista com Pablo Capilé, Ahmad Jarrah e Lenissa Lenza do Espaço Cubo.

O terceiro número traz poemas de Allen Ginsberg traduzidos por Leo Gonçalves, Kenneth Rexroth e Bill Knott traduzidos por Reuben da Cunha Rocha, um dossiê com o escritor Sérgio Fantini, poemas de Micheliny Verunshck, Joca Reiners Terron, Júlia Studart, Manoel Ricardo de Lima, Mônica de Aquino, Paulo Scott, Guilherme Rodrigues, Fabrício Marques, Letícia Féres, litogravuras de Marcelo Terça-nada!, ensaio de Fernanda Salvo, conto de Jorge Rocha.

10 razões para se lançar uma revista hoje:

  1. Revistas são o veículo de publicação textual mais importante do meio literário dado o seu caráter informativo, sua circulação e seu espírito coletivo;
  2. Revistas são vitrines da produção de determinadas épocas, de determinados contextos;
  3. É através de publicações em revistas que a maior parte dos jovens criadores se lança no mercado;
  4. Revistas funcionam como parâmetro crítico para os leitores;
  5. Revistas funcionam como bússolas para escritores;
  6. Revistas são mais baratas que livros e portanto são mais democráticas;
  7. Revistas são vendidas em bancas de revistas;
  8. Revistas são periódicas e podem ser colecionadas como gibis;
  9. Revistas são lidas no banheiro;
  10. Há pouquíssimas revistas de poesia editadas hoje no país!
Mais informações:
http://saborgraxa.wordpress.com/revista-de-autofagia/

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Estirar a Língua

Oito séculos antes de Cristo o gesto era vulgar pela Ásia em pleno insultuoso. O profeta Isaías (774-609 a.C.) refere-se: “De quem fizeste vós escárnio? Contra quem abristes a boca, e deixastes a língua de fora? (57,4).Trezentos e sessenta e dois anos anteriores a Era Cristã, os gauleses assaltaram Roma e um dos guerreiros pôs a língua de fora injuriando os Romanos. O jovem Titus Manlius abateu-o: (Tito Lívio, VII, 9, 10, Valério Máximo, VI, 0, 1-2, Aulo Gélio, IX, 13,3), divulgando página dos desaparecidos Anais de Q. Cláudius, sobre a lingua exertare do gaulês atrevido. É do patrimônio mímico de toda a Europa. Pretos africanos e os nossos indígenas ignoraram o gesto antes do contato árabe e luso-espanhol. No Coração de Espinhos, de Lucas de Cranach, o Velho (1471 – 1528), Museu de Gand, um velhote ajoelhado, apresentando uma vara à guisa de cetro, suspende o gorro numa saudação caricata, e estende a língua zombeteira ao Filho de Deus. Dante Alighieri (Divina Comédia, Inferno, XVII, 74-75), inclui o paduano Reginaldo degli Scrovegni com a língua pendente, agressivo, inconformado, insubmisso, como boi lambendo o nariz: - Di fuor trasse la lingua come bue che il naso lecchi. No embarque para a Sibéria dos sublevados de 1906, une femme tire la langue au photographe: (L’Ilustration, Paris). É preciso que esse gesto tivesse merecido no Tempo uma longa capitalização significadora, um profundo conteúdo bárbaro e vivo no sentimento popular para que a mulher russa o escolhesse como a derradeira mensagem de protesto e desabafo. Recebemo-lo da Europa na equivalência da palavra do general Conde de Cambronne em Waterloo, comandando lê dernier caré de la Vieille Garde em 18 de junho de 1815. Frase suja que Victor Hugo disse sublime e Cambronne negava te-la dito. Foi divulgada a fotografia de Monteiro Lobato mostrando a língua aos sabotadores do petróleo: (Edgard Cavalheiro, Monteiro Lobato. Vida e Obra, 1°, S. Paulo, 1955). Tirer la langue à quelqu’n, se moquer de lui. No antigo Tibete constituía saudação dos humildes aos superiores (W. Montgomery Mac-Gover, Mon Voyage Secret à Ilhassa, Plon, Paris, 1926). Teria inicial morfologia no mito das Gorgonas, de língua exposta. Criação autônoma no México pré-colombiano, Maias de Chich’em Itzá, Mixtecos de Cholula, esculturas de animais símbolos com a língua longa e visível. O egípcio Bes, Bisou, Besou. A Gorgona, Gorgoneion no estudo de Minerva: medalhões e frisos de Igrejas na Inglaterra. Para mim, nem Luxúria e nem Gula. Estilização da Náusea. Kuuipo Aloha, o Deus do Amor no Hawai, tem a língua de fora e as mãos unidas pelas falanges na altura do abdome. Na lógica etnográfica seria a representação da refleção gulosa sem nenhum elemento erótico.

Câmara Cascudo
História dos Nossos Gestos - Uma Pesquisa na Mímica do Brasil

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Seminário Música e Mercado


sábado, 8 de agosto de 2009

Diário de Bordo: Buenos Aires


El Afronte Orquesta Típica na Feria de Santelmo

Sei que estou afastado, que abandonei este blogue nas últimas semanas. Mas as correrias tem sido muitas. Desde o ano passado que entrei no olho do furacão e não há previsão dos ventos soprarem mais brandos.


Nunca me obriguei a fazer ou publicar relatos de minhas viagens. Muitas vezes é um tédio, compromissos burocráticos, seminários, feiras, reuniões. Mas as pessoas ficam curiosas, sempre perguntam. Me lembrei de um texto do Walter Benjamin chamado “O Narrador”, onde ele diz que o narrador é, por definição, um viajante, e que dele não se espera nada menos que o relato do novo, do desconhecido. Nesses tempos de Gloogle Earth, Wikipedia, Youtube e Twitter nada é tão novo e desconhecido ao redor do planeta. Mas nem por isso as pessoas pararam de se interessar pelo relato dos viajantes.


Vou falar então de algumas coisas que foram novidades para mim nessas viagens recentes - algumas nem tão recentes - e que quero compartilhar com os leitores desse blogue. Nada demais, mas ao menos eu atualizo o blogue sem precisar falar sobre a crise no Senado!


Religiões portenhas


Como não terminei o relato portenho, re-começo pela peregrinação atrás das casas de tango numa fria madrugada de setembro em Buenos Aires. Depois de alguma pesquisa a indicação era de uma casa chamada “El Boliche del Roberto”. Pensei, mas um boliche? Fui com o pé atrás, mas a fonte parecia confiável e me garantiu que ali eu encontraria o que não se encontra nas casas de tango-show, caça-níqueis de turistas.. Não teve erro, boliches são os equivalentes argentinos a nossas biroscas, botecos, bitacas. Não havia, pelo menos nos que eu fui, sequer uma mesa de sinuca ou de totó, muito menos uma pista onde se busca strikes! Havia música ao vivo, acústica, tango cantado acompanhado por violão. Mais uma vez eu me surpreendi, como aconteceu em Lisboa e em Sevilha, com o silêncio religioso durante aqueles sets de cinco ou seis músicas intercedidos por intervalos de vinte minutos. A maior parte do público eram argentinos que conheciam o repertório inteiramente e, num local onde havia pelo menos umas cem pessoas, podia-se ouvir perfeitamente de qualquer parte da casa os senhores que dispensavam microfones e sistemas de amplificação que não a caixa de ressonância de seus violões e de seus próprios pulmões!


É inevitável a comparação. Imagine ouvir em qualquer cidade do Brasil um repertório com clássicos de Cartola, Nelson Cavaquinho, Lupicínio Rodrigues, Geraldo Pereira nessas condições? Impossível!


Mas eu iria me surpreender ainda mais. Dia seguinte fui ao Clube Fernández Fierro Orquesta Típica. Uma espécie de galpão, com mesas e cadeiras e um palco ao fundo, atrás de uma tela de proteção. O palco era ocupado por dez pessoas: piano, contrabaixo acústico, dois violinos, violoncelo, três bandoneons e um mestre de cerimônias, que em certos momentos assumia o microfone para apresentar as músicas, entreter a platéia ou recitar um poema sobre a base musical.


O mais impressionante é que embora a formação fosse de uma orquestra típica de tango, com uma estrutura semelhante ao octeto de Piazzola, a atitude dos músicos no palco era a de uma banda punk. A forma furiosa e performática com que eles tocavam, os contrapontos absurdos que eles faziam questão de ressaltar, causavam ainda mais impacto por ser aquele lugar, com aquelas características e com aquela luz. Certamente, poucas vezes vi a iluminação interferir tanto num espetáculo musical quanto daquela vez. A linha de frente do palco, com os três bandoneons alinhados, liderados por um bandoneonista mascarado e com longos cabelos rastafári, executava seus instrumentos com tanta maestria e fúria que a performance se transformava em algo da ordem do fantástico, dada a plasticidade do instrumento que ora parecia em sua amplitude as pernas abertas de uma dançarina nas mãos firmes de seu parceiro em pleno vôo.


Depois disso eu assisti também um concerto do Fito Paes, mas nada que me causasse uma impressão sequer próxima da Orquestra. O mais curioso para mim foi a reação da platéia, que se comportava como se estivesse num jogo de futebol, cantando e torcendo ao mesmo tempo. Com efeito, o tango e o futebol são uma espécie de religião para o argentino. Num dos passeios, próximo à Casa Rosada, me deparei com um grupo de manifestantes que reinvindicava algo ruidosamente. Mas não era um movimento de trabalhadores contestando uma medida tomada pelo governo, sequer era uma classe social definida: eram torcedores do Racing reinvindicando apoio do governo para determinadas ações que deveriam ser tomadas em relação ao clube.


Retornei no dia seguinte e quando fui à Calle Florida procurar discos e regalos, me assustei com uma enorme fila que virava quarteirões. Pensei: será que estão comprando ingressos para ver o jogo da seleção argentina? Nada disso, eram os fãs de Madona se acotovelando.


quarta-feira, 22 de julho de 2009

É fixe!

Sigo daqui a pouco para Portugal. Vou acompanhar a cantora Maísa Moura e sua banda em alguns concertos (como dizem por lá)! Vamos viajar a noite toda e pousar em Lisboa pela manhã. De lá embarcamos em outro avião para Faro, que fica no sul do país na região conhecida como Algarve. A primeira cidade onde vamos tocar se chama Guia. No dia seguinte nos apresentaremos no Teatro Municipal de Portimão. Aí retornaremos para fazer um último concerto em Cascais, na Grande Lisboa.

Em Portimão participo ainda de um recital de poesia organizado pelo Instituto de Cultura Ibero-Atlântica a convite do editor da Revista Atlântica João Ventura. Ele me recomendou que levasse na bagagem alguns litros de cachaça mineira. Sei que a cantora portuguesa Susana Travassos e a poeta mineira Brisa Marques estão por lá e também foram convidadas.

A viagem vai ser muito rápida, mas mesmo assim pretendo ouvir o António Zambujo no Senhor Vinho mais uma vez. E se tiver sorte vejo ainda numa casa de fados em Alfama a Ana Moura, a Carminho, a Raquel Tavares, ou mesmo o Camané!

Espero também que o meu parceiro Tiago Torres da Silva não tenha vindo ao Brasil justo essa semana e possamos finalmente tomar um vinho e comer um bacalhau.

Vou levar minha máquina e meu gravador. Depois eu conto aqui com mais detalhes o périplo português!

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Ondas curtas

quinta-feira, 2 de julho de 2009

A Moura

Clique na imagem para baixar o disco


“Esculpindo a solidão no sal”

Renato Negrão em Extravio


O CD de estréia da cantora mineira Maísa Moura é um dos trabalhos mais interessantes do mercado fonográfico atual. Além da voz de timbre raro, com coloração escura e expressão delicada, os arranjos sofisticados, quase sempre enxutos (por vezes até minimalistas) e o bom gosto que exala como um todo, o repertório consegue captar os lastros da decantação de uma tradição peninsular que herdamos e que fincou raízes no nordeste brasileiro. Para além da instrumentação, que mescla rabeca e violoncelo, sanfona e pandeiro, viola caipira e guitarra portuguesa, sitar indiano, saz turco e ronroco andino, os ecos dos árabes e bérberes que dominaram a Península Ibérica por oito séculos se faz sentir nas melodias modais, no acento rítmico das palavras, no lirismo agreste das letras.

O deserto percorre todo o disco, seja em arranjos que evocam a ação contínua dos ventos como em “Seu Avô”, seja na própria temática de canções como “Casa de Areia”, que descreve a ação inexorável do tempo e das forças naturais numa paisagem desolada. A solidão (Sombra, Terra Estrangeira, Extravio, Casa de Areia), a loucura (Canção do Lobisomem, Cego com Cego, Mortal Loucura), os rituais de passagem (Solstício de Inverno, Moçambique) assim como os pequenos prazeres e as belezas mais recônditas (O Pidido, O amor de Dentro, Ímpar ou Ímpar) insurgem com uma força arrebatadora que nos coloca diante do imponderável da vida. Cada nota soa como cristais de areia e sal que atravessaram o atlântico em correntes de ventos marítimos e formaram aqui paisagens sonoras inusitadas.

Por outro lado, consciente de que a influência moura aqui deste lado se fez presente por apropriação e justaposição constante de elementos da cultura árabe com a cultura negra, indígena e européia branca, através de fusões melódicas, rítmicas e instrumentais, o disco não se prende a um estilo ou gênero específico que possa dar ao trabalho o caráter de música árabe ou oriental, por assim dizer. Pelo contrário, o que se dá é um diálogo profundo com a melhor tradição da música brasileira e isso, por si só, explica e justifica seu ecletismo e sua profusão de referências implícitas. O tempero mourisco, por sua vez, surge amalgamando a multiplicidade nos pequenos detalhes, nos intervalos de tons audíveis apenas para os ouvidos treinados, nas escalas nordestinas que pontuam uma e outra melodia, nos silêncios suaves e nas respirações suspensas. Apesar de incontestável, a herança ibérica é sutil, às vezes subliminar, tornando a audição uma verdadeira aventura através do tempo e do espaço sonoro. E não é por acaso que o disco remete ainda aos gregos, a começar pelo próprio nome. Afinal, foram os árabes que re-introduziram a cultura grega na Europa medieval cristã.

O tecido fino dessa Moira interliga conceitos e idéias esquecidos no baú de nossa memória ancestral. O fio da tradição oral se torna por isso um guia imprescindível para nos orientarmos na travessia desse labirinto implacável de sons e sentidos. Não será surpresa tampouco se Cloto fiar essa linha de Ariadne na roca contemporânea que engendra a rede mundial conectada por fibras óticas. Nas mãos das Parcas as tessituras da vida se entrelaçam para determinar nosso destino. Maísa é uma fiandeira de sons e não há como passar imune aos seus sortilégios. A não ser que você tenha cera nos ouvidos!

sábado, 20 de junho de 2009

Rios, pontes e overdrives

Desde quinta estou em Recife participando do Porto Musical. O evento, na sua terceira edição e desvinculado da Feira Música Brasil - que foi novamente adiada, desta vez para dezembro - é hoje o melhor lugar no Brasil para se encontrar as pessoas mais interessantes e interessadas na exportação da nossa música contra-industrial. Encontrei por aqui, por exemplo, o Gerald Seligman, criador e diretor da WOMEX, o Edu Louzada, do projeto de exportação da música do Espírito Santo, o Benjamin Taubkin, do Mercado Cultural de Salvador e do mundo, o Brant Grulke, diretor do festival South by Southwest, o Pablo Capilé, do Espaço Cubo, o Ivan Ferraro, da Feira da Música de Fortaleza, além de dezenas e dezenas de outros que vem ajudando a confirmar o vaticínio de Tom Jobim: "A saída para a música brasileira é o aeroporto!"

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Manifesto pela Música Autoral

Há um fenômeno na música produzida em Minas atualmente. O que chama a atenção em primeiro lugar é algo aparentemente óbvio na caracterização de qualquer cena: é predominantemente autoral. Segundo, e não menos impressionante é a quantidade. Não há registro na história recente de outra época em que se tenha produzido tanta música como agora. Nem durante o período áureo do Clube da Esquina nos anos 70 nem durante a fase heróica do rock mineiro nos anos 80.

Além disso, há uma peculiaridade que dá liga e amálgama para toda essa produção, algo ainda intangível, dissimulado quase, subreptício, mas identificável na maior parte dessa produção, independente de gênero ou estilo. Esse elemento muitas vezes é identificado como um germe da escola harmônica mineira, ainda que seja a negação dela.

Outra característica dessa cena é o fato de que não há unidade estética, a produção vai da música instrumental ao rock, do regional ao samba, há uma diversidade e uma afinidade ideológica.

Alguns fatores contribuíram e ajudam a entender o fenômeno. Houve nos últimos anos uma significativa profissionalização dos músicos e produtores atuantes na cena. Parte dela é graças ao aporte financeiro injetado no mercado local pelas leis de incentivo, com destaque para a estadual, com dedução do ICMS. Graças às leis a maior parte desses artistas conseguiu gravar seus discos em condições adequadas, montar seus shows com qualidade técnica compatível com os padrões de mercado, adquirir equipamentos e instrumentos de qualidade, além dos produtores terem se capacitado, formalizado suas empresas, etc.

Outro fator importante é o advento da organização inédita dos músicos. Nos últimos anos surgiram algumas entidades e um fórum que ganhou reconhecimento da sociedade e abriu um canal de interlocução com o poder público. A partir dessa articulação foi lançado um programa inédito no país que engloba um edital de passagens, um edital de circulação nacional e um programa de exportação.

Iniciativas como o Reciclo Geral, realizado em 2002, organizado pelos próprios músicos e considerado um marco dessa nova geração, serviram como modelo e incentivo para outras ações. Serviram também para provar a existência de um público ávido por novidade, que naquela ocasião lotou o Reciclo Asmare Cultural durante três meses para ouvir exclusivamente composições inéditas.

Essa música começa a ser reconhecida no Brasil e no mundo. Prova disso são os convites de festivais e casas de espetáculo que começam a surgir. O público local já percebeu esse fenômeno e acompanha a cena com avidez. Tudo indica que somente os elos da cadeia responsáveis pela veiculação e consumo local são os únicos ainda insensíveis ao fenômeno. Só isso explica o fato dessa música não tocar nas rádios locais (com exceção de programas específicos da Rádio Inconfidência, da UFMG Educativa e da Rádio Guarani) e não haver sequer uma casa de shows onde essa produção seja acolhida com um mínimo de dignidade.

Entenda-se por acolhimento digno o cumprimento mínimo de exigências universais para que a música autoral seja apresentada, a saber: som e luz compatível com a formação e tratamento acústico de acordo com o espaço; palco com dimensões adequadas à formação; cachê ou porcentagem mínima da bilheteria; apagamento da luz da platéia e interrupção do serviço dos garçons durante a apresentação; tempo máximo de 2h incluindo possíveis intervalos; alimentação dos músicos; pagamento dos direitos autorais; contrato assinado.

Essas condições, que podem parecer exageradas se considerada nossa situação atual, são comuns em todas as casas de espetáculo que investem no perfil de música autoral em qualquer parte do mundo. Palco, luz, tratamento acústico e atenção do público, redução da luz e interrupção do serviço de atendimento das mesas (em algumas casas os garçons atendem com lanterninhas) são detalhes fundamentais para se conseguir uma ambientação adequada.

Mas sabemos que não se modifica esse atual contexto da noite para o dia. É gradual a profissionalização dos espaços e a resposta do público ao investimento é inevitável. Esse é o primeiro passo, estamos aqui propondo um diálogo aberto com os programadores e diretores de rádios e os donos das casas de shows em Belo Horizonte.

COMUM – Cooperativa da Música de Minas

domingo, 17 de maio de 2009

Discografia para baixar

Tenho o prazer de comunicar que os três discos que eu gravei estão agora disponíveis para baixar gratuitamente. O melhor é que estão todos nos blogues de música onde você encontra não só a produção fonográfica recente, mas parte significativa do acervo das grandes gravadoras. São discos que estão fora de catálogo há anos, muitos deles nunca editados em CD e por isso atingindo preços exorbitantes nas lojas especializadas, principalmente no Japão. Nos blogues qualquer um pode baixar de graça e conhecer o conteúdo dessas bolachas, que afinal, é o que importa!

Eu só tenho de agradecer e apoiar os responsáveis pela iniciativa, não só por terem se dado ao trabalho de subir meus discos mas, principalmente, pelo fato de terem me possibilitado conhecer de ouvido muita coisa que eu tinha só ouvido falar.

A Outra Cidade (2003) no Música da Boa


Danaide (2006) no
Um que Tenha

Autófago (2008) no The Bossa Blog


Espero em breve disponibilizar também os meus livros, assim que conseguir finalizar a re-diagramação deles, já que perdi os arquivos originais num HD queimado.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Técnica infalível a serviço do glorioso!

Desde pequeno torço pelo glorioso Metaluzina, de Barão de Cocais. Fui meia-esquerda e batia os pênaltis no dente-de-leite e depois nas categorias subsequentes. Tinha uma técnica infalível de concentração que desenvolvi lendo “O Kung Fu de Bruce Lee”. Naquela época me parecia uma associação natural.

Parei de jogar bola aos dezessete, dezoito anos e faz muitos anos que não bato um pênalti. Não me lembro mais da técnica marcial. De alguma forma perdi o interesse por futebol desde que parei de jogar.

Assisti a todos os jogos da seleção brasileira na copa de 82. Foi o maior time que minha geração viu jogar. Eu tinha sete anos. Por isso todos os garotos da minha idade que gostavam de futebol tinham pelo menos duas grandes referências: Zico e Sócrates. O Galinho jogava pelo Flamengo e o Doutor pelo Corinthians.

Todo garoto da minha idade que gostava de futebol torcia por esses times por contigüidade, porque assim torciam pelos seus heróis. Por isso vejo com uma certa simpatia nostálgica essa conquista dos títulos estaduais pelo Flamengo e pelo Corinthians. É uma espécie de retomada simbólica do futebol mítico daquela seleção que Pasolini classificou como poesia. Nenhum jogador encarnou melhor essa característica cada vez mais rara no futebol-força atual do que os três Ronaldos falantes do português.

Ronaldo Nazário, particularmente, me chamou a atenção para o futebol novamente quando surgiu no Cruzeiro. Comecei a torcer por contigüidade. Depois acompanhei sua carreira de longe, eventualmente, principalmente no Barcelona e no Real Madrid, com as facilidades das transmissões a cabo. Seu retorno como fênix ressuscitada num time nacional, nas circunstâncias em que ocorreram, dão um caráter épico à sua trajetória. Todos os caras da minha idade que jogaram futebol na infância tem de reconhecer o fato incontestável de que ele é o melhor jogador da nossa geração. Ele é tudo que nós queríamos ser nas nossas peladas de várzea porque conseguiu realizar em ato nosso desejo de jogar com a categoria de Zico e a inteligência de Sócrates.

E digo tudo isso sem deixar de lado minhas convicções e minha condição irrefutável de torcedor incondicional do glorioso Metaluzina! Qualquer hora dessas inclusive, vou disponibilizar aqui o hino que compus em homenagem ao maior orgulho dos pés-de-pomba.

Por hora estou pensando em voltar a bater pênaltis...

sábado, 18 de abril de 2009

Revista de Autofagia nº 3

Durante a semana eu pensei em várias pautas para esse poste. Podia falar das reformas da Lei Rouanet e da criação do Fundo Nacional de Cultura; da reunião que tivemos com o ministro Juca Ferreira para tratar desse assunto; do show que farei na próxima quinta no Parque Municipal, aqui em Belo Horizonte; da criação do meu perfil no twitter; da seleção para participar de um festival em Londres, no mês de novembro; dos shows que rolaram em Brasília e no Rio nas últimas semanas e das conversas com Tom Zé no camarim do Palácio das Artes; da participação no belíssimo e delicado show da Maísa no Teatro Alterosa; dos discos do Rafael Macedo, do Leo Minax e da Carol Saboya, que chegaram esta semana com canções minhas; da viagem que farei para Alagoas no início de maio; do seminário internacional sobre música que estou ajudando a organizar e da mesa que vou mediar na semana que vem; etc.

Acontece que hoje chegou da gráfica o terceiro número da Revista de Autofagia! Para quem não sabe é uma revista em papel que eu e Bruno Brum insistimos em publicar desde 2006. Entre burocracias com a liberação do recurso do fundo municipal de incentivo, a seleção do material, revisão, projeto gráfico e a edição estamos nessa batalha há quase um ano. Isso sem esquecer que o segundo número não teve, por assim dizer, um lançamento oficial. Chegamos a pensar em nem fazer mais lançamentos, ou no máximo lançar alguns exemplares do alto dos arcos do viaduto de Santa Tereza, num ato simbólico de desprendimento material e crítica ao mercado editorial estabelecido. Por fim resolvemos fazer tudo como manda o figurino e vamos marcar para breve o lançamento dos dois números de uma vez com coquetel, performance e autógrafo dos autores participantes.

Downloads

Resolvemos também disponibilizar os dois primeiros números em PDF:

Revista de Autofagia nº 1 (clique na imagem)


Revista de Autofagia nº 2 (clique na imagem)


Quero aproveitar e agradecer o pessoal que está ajudando a semear: Sandro Saraiva, Marcelo Terça-Nada, Leo Gonçalves, Reuben da Cunha e Marcelo Sahea


Serviço de utilidade pública

Para quem ainda não sabe, Bruno Brum se mudou para uma casa mais espaçosa, um condomínio no campo, onde se dedica, ao lado de sua mulher Helena Brun, à poesia, à criação de gatos Bengal e à arte de manipular imagens e textos de forma a conseguir o maior impacto e o melhor equilíbrio visual. Dê um pulo lá!


Improviso em Pequim

Por fim, deixo aqui esse longo poema épico do genial e tresloucado Allen Ginsberg, na tradução do Leo Gonçalves que incluímos (em versão bilíngüe) neste novo número da revista:

Eu escrevo poesia porque a palavra Inglesa Inspiração vem do Latim Spiritus, respiração, eu quero respirar livremente.
Eu escrevo poesia porque Walt Whitman deu permissão mundial para falar com candor.
Eu escrevo poesia porque Walt Whitman abriu os versos da poesia para a respiração desobstruída.
Eu escrevo poesia porque Ezra Pound viu uma torre de marfim, apostou num cavalo errado, deu aos poetas permissão para escrever no idioma vernacular falado.
Eu escrevo poesia porque Pound indicou aos jovens poetas do Ocidente que observassem as palavras da escrita pictográfica chinesa.
Eu escrevo poesia porque William Carlos Williams que vivia em Rutherford escreveu o
Novajerseyês “I kick yuh eye”, perguntando, qual a medida disso em pentâmetro iâmbico?
Eu escrevo poesia porque meu pai era poeta minha mãe vinda da Rússia que falava
Comunista, morreu numa casa de loucos.
Eu escrevo poesia porque meu jovem amigo Gary Snyder sentou-se para olhar seus pensamentos como parte dos fenômenos do mundo exterior exatamente como numa mesa de conferência em 1984.
Eu escrevo poesia porque eu sofro, nascido que sou para morrer, pedras nos rins e pressão alta, todo mundo sofre.
Eu escrevo poesia porque eu fico confuso por não saber o que as outras pessoas pensam.
Eu escrevo porque a poesia pode revelar os meus pensamentos, curar minha paranóia e também a paranóia de outras pessoas.
Eu escrevo poesia porque minha mente vagueia entre assuntos de sexo política meditação Buddhadharma.
Eu escrevo poesia para fazer boa imagem da minha própria mente.
Eu escrevo poesia porque tomei os Quatro Preceitos do Bodhisattva: a sensibilidade a ser liberada das criaturas é inumerável no universo, minha própria ignorância gananciosa corta a infinitude da verdade, as situações em que encontro a mim mesmo enquanto o céu está bonito são incontáveis, e o caminho da mente desperta não tem fim. Eu escrevo poesia porque essa manhã eu acordei tremendo com medo o que é que eu iria dizer na China?
Eu escrevo poesia porque os poetas Russos Maiakóvski e Iessênin cometeram suicídio, alguém mais precisa falar.
Eu escrevo poesia por causa do meu pai que recitava o poeta Inglês Shelley e o poeta americano Vachel Lindsay em voz alta dando exemplo grande alento de inspiração.
Eu escrevo poesia porque escrever sobre sexo é censurado nos Estados Unidos.
Eu escrevo poesia porque milionários de Leste a Oeste dirigem Limousines Rolls-Royce e pobres não têm dinheiro nem para ir ao dentista.
Eu escrevo poesia porque meus genes e cromossomas se apaixonam por garotos e não por garotas.
Eu escrevo poesia porque não tenho responsabilidades dogmáticas de um dia para o outro.
Eu escrevo poesia porque eu quero estar sozinho e quero falar para as pessoas.
Eu escrevo poesia para me voltar e falar com Whitman, jovens aos dez anos falam com
velhas tias e tios que vivem ainda nas proximidades de Newark, Nova Jersey.
Eu escrevo poesia porque ouvi negro blues no rádio em 1939, Leadbally e Ma Rainey.
Eu escrevo poesia inspirado pela alegre juventude das canções envelhecidas dos Beatles.
Eu escrevo poesia porque Chuang-Tzu não podia dizer se era homem ou borboleta, Lao-Tzu disse que a água flui montanha abaixo, Confúcio disse para honrar os mais velhos, eu quis honrar Whitman.
Eu escrevo poesia porque ovelhas e gado superalimentados vindos da Mongólia para o Ocidente Selvagem dos Estados Unidos destroem a grama nova e a erosão cria desertos.
Eu escrevo poesia calçando sapatos com pele de animal.
Eu escrevo poesia “Primeira idéia, melhor idéia” sempre.
Eu escrevo poesia porque não-idéias são compreensíveis exceto se manifestadas em
determinados minutos: “Não-idéias mas nas coisas”.
Eu escrevo poesia porque o Lama Tibetano diz, “As coisas são símbolos delas mesmas”.
Eu escrevo poesia porque as manchetes de jornal são um buraco negro em nossa
galáxia-central, nós somos livres para noticiar isto.
Eu escrevo poesia por causa da Primeira Guerra Mundial, a Segunda Guerra Mundial, a
bomba nuclear e a Terceira Guerra Mundial se queremos isto, eu não preciso disto.
Eu escrevo poesia porque meu primeiro poema Uivo não precisou ser publicado para ser perseguido pela polícia.
Eu escrevo poesia porque meu segundo longo poema Kaddish homenageava o parinirvana da minha mãe num hospital psiquiátrico.
Eu escrevo poesia porque Hitler matou seis milhões de judeus, eu sou judeu.
Eu escrevo poesia porque Moscou, segundo Stalin, exilou 20 milhões de Judeus e
intelectuais na Sibéria, 15 milhões deles nunca voltaram para o Café Stray Dog de São Petersburgo.
Eu escrevo poesia porque eu canto quando sinto que estou sozinho.
Eu escrevo poesia porque Walt Whitman disse “Eu me contradigo? Muito bem, então eu
me contradigo (Sou vasto, contenho multidões.)”
Eu escrevo poesia porque minha mente se contradiz, um minuto em Nova York, o próximo minuto nos Alpes Dináricos.
Eu escrevo poesia porque minha cabeça contém 10.000 pensamentos.
Eu escrevo poesia porque sem razão sem porquê.
Eu escrevo poesia porque é o melhor caminho para dizer tudo o que penso dentro de 6 minutos ou uma vida inteira.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Maísa nas Alterosas

“Disco e show da Maísa Moura é um bordado táctil, pictórico, na tessitura da canção. Um sítio, um som que te pega pela mão, diante dos imbricamentos da letra e do tom e ponto a ponto palmilham linhas que vão se fazendo diante dos acasos e dos ocasos. Evidenciando os contrastes de cor e luz, por meio de uma banda que se souberam acolher e de uma interpretação sutil, singular. Um disco para se lançar no outono, porque outonos estão se tornando raros, de uma cantora inteligente, de voz rara.”
Renato Negrão – poeta e compositor
http://nocalo.blogspot.com/


“As interpretações de Maísa realizam no estúdio as sutilezas que se consegue ape¬nas na liberdade dos ensaios sem compromisso. Seu canto não é classificável. É um canto fluido, dotado de uma textura tão áspera quanto leve; tão forte quanto delicada. Uma voz que se sente com o tato; encarnada; viva; Maísa é, sem dúvida, a mais criteriosa cantora da mais recente geração de intérpretes mineiras.”
Renato Villaça , compositor e produtor musical
http://www.renatovill.blogspot.com


“Moira convida o ouvinte a um universo de profundidade e sensibilidade. Ousada, mas sem pretensão e por isso precisa e certeira Maísa Moura desponta na cena mineira com au¬tenticidade e um potencial de grandes realizações. Suas pesquisas resultaram em um disco requintado, que nos transporta para um ambiente camerístico - ou ‘Roseano’ como pontuou Titane – em todos os casos bem expressivo. É um disco para ser apreciado com o mesmo cuidado e dedicação com que foi feito. Trilha sonora para todos os dias descobrir um novo toque, um outro timbre ou um verso arrebatador.”
Ludmila Ribeiro – jornalista
http://oraboa.blogspot.com


Um CD delicado, em que os arranjos minimalistas e a interpretação suave parecem estar a ser¬viço da poética das letras, como se fossem veículos para ressaltar a força do texto. Essa é a pri¬meira impressão que fica ao se ouvir o álbum «Moira», da cantora Maísa Moura. Além do viés calcado muito na força expressiva das letras, outro fio condutor que confere unidade ao trabalho diz respeito aos arranjos. Essa também foi uma preocupação de Maísa Moura, que escalou o trio de arranjadores Avelar Jr., Guilherme Castro e Vladmir Cerqueira. A sonoridade limpa, sem muitos instrumentos, é eficaz e enriquece melodicamente cada inter¬pretação.
César Macedo – jornalista
Jornal Hoje em Dia